Ponto de Situação



As vulnerabilidades persistem como sempre alertámos

Inventou-se muita coisa, mas os resultados estão à vista como ao longo de muitos anos temos alertado. E agora veio o Tribunal de Contas (TC) comprovar muito do que dissemos com a insistência e regularidade que considerámos importante. O TC, como nós, não deixa de reconhecer algumas melhorias.
Mal feito fora. Mas também aponta com veemência que ainda não foram todas concretizadas muitas medidas de prevenção e combate. Essa apreciação diz respeito a 2018 e 2019, mas de lá para cá o que se fez não foi suficiente para colmatar essas falhas nem para garantir padrões de eficiência, por um lado, e de eficácia, por outro, na concretização dessas medidas.
Neste domínio, como noutros, é lógico concluir que não basta anunciar as medidas, pôr-lhes dinheiro em cima e legislar para que as coisas aconteçam. Na realidade, cada uma dessas etapas tem muito que se lhe diga, nomeadamente, a necessidade imperiosa de auscultar e envolver os parceiros. Não basta cumprir a formalidade de acrescentar no final da lei que a Liga dos Bombeiros Portugueses foi ouvida quando no mesmo local não se divulgue quais foram as propostas alternativas e sugestões que a confederação fez e que no final não foram tidas em conta na elaboração dessa lei.
O TC aponta persistentes vulnerabilidades, nomeadamente na gestão do território e da vegetação. Tem sido isso que em diferentes fóruns, dirigentes, comando, bombeiros, todos temos dito. Não se trata de sabotar ou desvalorizar seja que iniciativa for. Trata-se de encarar as situações com verdade, com rigor, com exigência, com frontalidade e tecnicidade.
O país dá ares de muito rico quando malbarata muito conhecimento, algum porventura empírico, mas comprovado, outro acumulado também pelo conhecimento da realidade, mas já assente em conhecimento técnicos e científicos, entretanto adquiridos, que ao longo dos anos foi acumulado pelos bombeiros, nomeadamente no combate ao fogo rural e florestal.
Pouco se trata de recolher e sistematizar esse manancial de conhecimentos, valorizando-os e dando-lhes a devida e merecida expressão, para depois os acrescentar, eventualmente com dados novos, conhecimentos novos colhidos de outras fontes e que estabeleçam um corpo homogéneo que respeite a realidade do país e as suas particularidades. O TC salienta que o modelo de organização territorial previsto, em setembro de 2020, estava executado em apenas 30 por cento. Tal grau de concretização deixa muito a desejar também sobre tudo o que se associa a isso no âmbito da proteção e do socorro.
Importa acima de tudo que, como é comum dizer-se, não se pretenda fazer a casa a partir do telhado, mas dos fundamentos, dos alicerces. Fazê-lo ao contrário, como tantas vezes tem acontecido no sector, pode resultar em termos mediáticos, mas, na prática está condenado ao fracasso.
Isso tem acontecido de certa forma com base naquilo que podemos apelidar de um experimentalismo calculado, ou seja, atirar ao ar ideias e projetos sem testá-los devidamente.
O impacto negativo fica então à vista, como temos assistido, mas quem o faz sabe os poucos riscos que corre, já que os bombeiros, sublinhe-se sempre, estão no terreno, estão atentos e disponíveis e como, ficou provado, intervêm sempre para tapar os buracos das ideias peregrinas e inconsistentes que outros lançaram ao ar como salvadores da pátria.
Não é isso que temos visto a cada passo no combate aos incêndios rurais e florestais? Claro que é.
Que bom seria que, além dos nossos alertas de muitos anos para a falta de gestão da floresta, o seu desordenamento, o seu abandono e a falta de prevenção a sério, víssemos concretizadas medidas que preconizámos ou a que demos o nosso apoio, mas que não foram concretizados.
Há áreas apontadas pelo TC executadas apenas entre 20 a 50 por cento, a gestão de combustíveis em 10 por cento e outras, nomeadamente o reforço das redes de defesa em zero por cento.
Quando se anuncia em cada ano a panóplia de meios para o combate, que se diz cada vez em maior número, importaria também justificá-los perante a ineficácia das percentagens de concretização de outras medidas apontadas genericamente para a prevenção.
Dir-se-á que continuamos a carregar no sistema com recursos que não soubemos aplicar para prevenir. Mais do mesmo diremos nós. Continuamos a apostar na doença e não na cura esquecendo que, quanto mais apostarmos nas inúmeras e diversificadas vantagens da prevenção, nos mais diversos quadrantes, técnicos, paisagísticos e ambientais, menos teremos que empenhar meios humanos e materiais num combate que se traduz sempre em mitigar o prejuízo.
Como sempre, os bombeiros acreditam na defesa da floresta, nos inúmeros benefícios, sociais, económicos e ambientais que isso representa. E têm dado sobejas provas disso. Contudo, não esperem deles uma atitude de passividade perante os atropelos a que a floresta continua a ser sujeita, o sorvedouro de dinheiro por explicar que se diz aplicar nela, quando depois acabam por ser sempre eles os últimos a intervir e a ter que tentar corrigir os erros, as insuficiências e as omissões de outros. Pese embora o eventual sucesso da propaganda e da sistemática esgrima dos recursos aplicados na floresta.
Os bombeiros, que continuarão a ser os fiéis e aplicados defensores da floresta, é que veem passar os ditos recursos ao lado. De uma coisa (entre muitas) temos a plena convicção que se nos têm ouvido, se têm seguido as nossas propostas o território florestal português, já hoje, estaria bem diferente, para melhor, mesmo muito melhor. E disso temos não só a convicção, outrossim, a absoluta certeza.