Bombeiro Manel


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O efeito da Bola Preta

A pandemia que estamos a viver por razões do nosso quotidiano tende a ser interpretada com a mesma desumanidade com que tantas vezes também se interpretam os números das mortes da estrada ou dos incêndios florestais ou urbanos, ainda dos suicídios ou também das chamadas abertura de portas com socorro.
A tendência natural é, infelizmente, a massificação dos números. No momento em que vos escrevemos estas notas começa-se já a verificar uma regressão dos números de óbitos e de novos infetados. E é comum os comentadores rejubilarem com isso numa lógica teórica que se entende, mas que também não pode deixar de se lamentar. É comum a afirmação de que neste ou naquele dia já só morreram 100 ou 200 pessoas. Arrepia a frieza com que isso é dito, como se falássemos apenas de números, mas, na realidade, de pessoas, gente como nós, que tinham vida, família, profissão, cada uma delas sem exceção.
Falar dos mortos não se esgota nos números que descem ou que sobem. Aliás, dizem até respeito a níveis etários diversos, mas com maior incidência nos mais idosos, muitos em lares, uns dependentes, ou não, mas todos dignos do respeito da comunidade por tudo o que fizeram em vida As nossas associações e corpos de bombeiros circunscrevem-se a essa comunidade local onde tantas vezes as pessoas se conhecem ou pelo menos têm conhecidos ou amigos em comum.
São muitas destas histórias com que os bombeiros se deparam quando tantas vezes, e com frequência no início da manhã, se debatem com situações de “bola preta”. Quantas vezes cabe aos bombeiros, não só proceder à remoção do cadáver, mas também ser o primeiro ombro a que se acolhem os familiares ou amigos do falecido.
Todos o sabemos que são muitas as intervenções destas, em que os bombeiros intervêm no dia a dia, confrontados com as mais diversas situações e razões, ou a ausência de elas. Apesar da experiência e, pode dizer-se, da habituação a estes casos, contudo, os bombeiros pensam estas situações de outro modo.
Uma “bola preta”, mesmo que frequente, vem sempre afetar o dia dos bombeiros chamados a intervir. Não são os números grandes ou pequenos de óbitos esgrimidos pela comunicação social e que se comenta à distância. É o caso do homem e da mulher, conhecida ou não, mas sempre uma pessoa, com rosto, com corpo pouco depois de ter deixado esta vida que os bombeiros tratam sempre com respeito e com profissionalismo.