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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

21/08/2017

11:09

Pedrógão vai continuar a queimar

04/08/2017 10:23:55

Segundo refere um título recente do matutino “I” aponta-se que “

Elaborámos um conjunto de questões que nos assaltam. Outras haverão. Não se esgotam todas na lista que vamos fazer chegar a todas as entidades envolvidas na investigação. Algumas delas, após obtida a resposta, porventura, irão suscitar outras questões. Até ao apuro final de tudo o que aconteceu.

Pedrógão vai continuar a queimar também até que se saiba tirar todas, mas mesmo todas, as ilações do sucedido.

Em memória e respeito pelas vítimas não deixaremos de questionar, para que não se repetida o sucedido. A somar aos muitos alertas que a Liga dos Bombeiros Portugueses tem lançado a cada passo e que também não deixaremos de retomar sempre que assim se entender, certos da legitimidade e da razão para o fazer.

Certo é que a complexidade crescente dos incêndios florestais, à partida, tem razões sobejas e conhecidas. Por um lado, estamos perante condições meteorológicas adversas que cada vez se

repete mais e com crescente gravidade. Por outro, a desorganização da floresta que, não só permanece, como especialmente aumenta em função da inação e do aumento do risco que acarreta.

À partida, estamos perante condições explosivas, em que o combate se torna cada vez mais difícil, exige cada vez mais repartição dos meios em presença em função da proliferação de situações urgentes.

Pedrógão ficará para a história como uma jornada negra da nossa história mas importa que esse legado trágico não tenha sido em vão, para que represente um momento de mudança.

Estamos perante circunstâncias em que ocorreram os incêndios, ainda não devidamente apuradas e as suas consequências ainda não devidamente assumidas nem explicadas.

Estamos numa fase de transição em que depois de formuladas as interrogações, com que também contribuímos, se espera pelas respostas, pelo resultado das análises.

As fatalidades, sejam de que ordem for, têm por base muitas razões, umas diretas outras indiretas, umas naturais, outras não. Muita coisa concorre para todas elas.

Importa agora, apuradas as razões e as circunstâncias, elencar e tirar conclusões sobre as consequências, com rigor, transparência e com verdade.

É isso que os bombeiros pretendem. As gavetas das entidades oficiais estão cheias de estudos e relatórios que, porventura, podendo constituir excelentes documentos no plano literário e técnico, no entanto, de pouco ou nada contribuíram para as conclusões e as mudanças neles apontadas. Na prática, na generalidade é isso que tem acontecido.

Os bombeiros mantêm expectativa para que alguma vez essas conclusões sejam devidamente acolhidas e, se necessário, possam até fazer doutrina.

Os bombeiros sabem como combater incêndios florestais, preparam-se, treinam-se, e consideram que as conclusões dos estudos e análises poderão servir-lhes como instrumento para também, se necessário for, evoluírem no ataque. Sendo certo que, por mais que se evolua nesse domínio, todos sabemos que, de facto, a questão há muito que não se centra no combate mas na vigilância e na prevenção.

Quantas mais vezes os bombeiros precisarão de desfiar o rosário de razões e preocupações em torno dos incêndios florestais e que, de tão falados e apontados, até correrão risco de entrarem na lógica das banalidades e dos lugares-comuns.

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Apesar disso tudo, pelas razões que nos assistem, e são muitas, não deixaremos de lutar pelo apurar da verdade.

Continuamos a ver muita gente a falar de tudo, a opinar sobre tudo, a vaticinar até quando as coisas já sucederam em busca de fugazes momentos de glória.

É também essa questão que preocupa os bombeiros, o facto da muita poeira que paira no ar, que não tem a ver com as cinzas provocadas pelos incêndios, mas com a verborreia de muita gente que mais se preocupa em olhar para o seu umbigo do que a contribuir com rigor, elevação e respeito para a construção de uma solução séria e sustentável.

A dita “lei da rolha”, que recentemente foi instituída pela ANPC, também não ajuda. A ANPC é livre de se organizar como entende mas não pode passar incólume perante decisões como esta que, no fundo, demonstra falta de confiança em quem está no terreno, não tem sentido nenhum, salvo para filtrarem informações que entendam formatar a seu bel-prazer.

Só esperamos que a lógica da rolha não tenha efeito viral relativamente a tudo o que é necessário vir a saber sobre Pedrógão e tudo o que lhe diga respeito. Queremos transparência, rigor e verdade sobre o assunto.

No passado garantiram-nos que iriam ser tomadas decisões para garantir a vigilância e a prevenção nas florestas. Depois, cada ano, por uma razão ou outra, as decisões não foram postas em prática, não foram tomadas, ficaram suspensas e, depois, inevitavelmente ficaram congeladas.

É isso que os bombeiros não querem que volte a acontecer. Formulámos as questões, que dirigimos a quem de direito, de forma construtiva, apesar de, lamentavelmente, não terem contado connosco para os grupos ou comissões de análise.

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