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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

sexta-feira,

17/11/2017

17:29

RECORDANDO O ANTIGO MUSEU JÚLIO CARDOSO

01/06/2017 15:23:30


Pesquisa/ Texto: Luís Miguel Baptista 


NHist..jpgNHisto.jpgInstalado numa das salas da então sede da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), sita na Rua Barata Salgueiro, 29 – 2.º Esquerdo, em Lisboa, o Museu Júlio Cardoso foi inaugurado oficialmente a 30 de Maio de 1951, com a presença do inspector de incêndios da Zona Sul, major Luís Ribeiro Viana, por ocasião da passagem dos 19 anos sobre a publicação da portaria do Ministério do Interior que legalizou a existência da Confederação.

A sua criação ficou a dever-se a uma ideia lançada pelo comandante Álvaro Valente, dos Bombeiros Voluntários do Montijo, presidente do Conselho Fiscal da LBP, aquando do IV Congresso Nacional de Bombeiros, reunido em Portalegre, de 8 a 12 de Junho de 1938.

Tal ideia, motivada pela quantidade de elementos legados pelo malogrado comandante honorário dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, Júlio Cardoso, não só mereceu desde logo aceitação como veio a ser apoiada através de várias doações de peças para exposição.

Entretanto, o progressivo aumento da colecção do Museu, documental e bibliográfica, originou, em 1964, a remodelação do respectivo espaço de acolhimento, beneficiado por obras de ampliação realizadas na sede.

Decorridos 20 anos, por imperativos de expansão dos serviços da Liga, o Museu Júlio Cardoso deixou de funcionar no seu local de sempre, sendo transferido para as instalações do Serviço Nacional de Bombeiros (SNB), situadas na Rua Júlio de Andrade, n.º 7, em Lisboa.

Porém, às novas condições de funcionamento não correspondeu um expressivo número de visitantes, vendo-se goradas as expectativas de desenvolvimento colocadas no processo de mudança.

Ainda durante a mesma década, por necessidade do SNB ocupar a área afecta ao Museu, a Confederação viu-se obrigada a cessar a actividade do mesmo, acondicionando todo o acervo no edifício-sede da Escola Nacional de Bombeiros, na Quinta do Anjinho, em Ranholas, Sintra.

NHistori.jpg

Desde então, têm sido feitas várias tentativas no sentido da criação do Museu dos Bombeiros Portugueses, embora nenhuma delas com êxito.

Por seu lado, o acervo do Museu tem conhecido diferentes fases, estando de momento a ser objecto de intervenção com vista à retoma da sua exposição, no contexto de uma nova dinâmica.

Patrono

A atribuição do nome de Júlio Cardoso ao Museu da Liga dos Bombeiros Portugueses constituiu um tributo à memória daquele que, na data da sua morte,  14 de Julho de 1937, era o decano dos bombeiros voluntários portugueses.

A ligação de Júlio António Alfaro Cardoso aos bombeiros principiou em 17 de Janeiro de 1878, como sócio protector dos Voluntários de Lisboa. Tinha 26 anos.

Ainda no mesmo ano, mas a 5 de Junho, passou a integrar o Corpo Activo, na categoria de aspirante.

Em 8 de Maio de 1893 e 29 de Março de 1895 viria a ser promovido, respectivamente, a 2.º patrão e 1.º patrão.

Manteve-se nos Bombeiros Voluntários de Lisboa (BVL) até 1901, ano da sua nomeação como chefe de contabilidade do Corpo de Bombeiros Municipais de Lisboa.

A 22 de Outubro de 1925 foi reintegrado no Quadro Honorário dos BVL, sendo elevado à categoria de comandante honorário, por deliberação de 3 de Maio de 1929.

Entre 1924 e 1926, numa fase de reorganização, assumiu a presidênca do Conselho Directivo da Federação dos Bombeiros Portugueses, estrutura antecessora da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Bombeiro corajoso e destemido teve acção de destaque aquando de violentos incêndios deflagrados na capital, expondo-se ao perigo, segundo condições de verdadeira heroicidade, no salvamento de pessoas e bens. Compareceu em cerca de 300 grandes incêndios.

Respeitado no país, de lés a lés, inclusive fora do meio dos bombeiros, pelo seu saber e pelas suas qualidades humanas, morais e cívicas, defendia o "Pai Cardoso", conforme era afectuosamente tratado, que "não há mestre como o fogo para produzir bons discípulos na difícil arte de o combater".

Relacionou-se com as mais prestigiadas figuras dos bombeiros de Portugal, nomeadamente, Guilherme Cossoul, Guilherme Gomes Fernandes e o Infante D. Afonso.

Possuidor de importantes condecorações e louvores, sobre o que dizia não lhe dar vaidade mas sim orgulho, mereceu do Estado português os graus de oficial da Ordem Militar de Cristo e da Ordem de Benemerência. Detinha ainda títulos de mérito e de honorário, conferidos por diferentes instituições dos bombeiros – Porto, Portuenses, Sesimbra, Torres Vedras e Luanda, entre outras. 

NHistor.jpgPara além da vida privada, nada mais o ocupou senão a "bombeirada", comentava.

Júlio Cardoso faleceu com 86 anos de idade e 60 de relevantes serviços, constando entre estes, também, o seu incondicional apoio à fundação da LBP, durante o Congresso Nacional de Bombeiros realizado no Estoril, entre 16 e 18 de Agosto de 1930, acerca da qual, um dia, escreveu, congratulando-se:

"Não será por demais repetir que na primeira reunião a que assisti, no Estoril, eram poucas as esperanças que eu tinha em que dalì saísse a união que dêsde os tempos saudosos e bem distantes de Guilherme Gomes Fernandes todos preconisavam, mas ninguém efectivava. Felizmente que os meus vaticinios não se realizaram. O grupo de rapazes – e bem lhes posso chamar assim – que de alma e coração se votaram à inglória tarefa de constituir a Liga, animados de uma fôrça de vontade inquebrantável, vencendo mil escolhos, transpondo centos de obstáculos, chegaram finalmente a uma etapa que bem se pode considerar a báse fundamental das nossas aspirações."


Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico



GUILHERME GOMES FERNANDES
CARICATURADO EM "A PARÓDIA"


Em 5 de Setembro de 1900, foi deste modo que o jornal humorístico "A Paródia" registou a vitória dos bombeiros portugueses (14 bombeiros do Corpo de Salvação Pública do Porto, antecessor do actual Batalhão de Sapadores Bombeiros do Porto) no Concurso Internacional de Bombeiros, realizado em Vincennes, perto de Paris, por ocasião da Exposição Universal, patente na capital francesa.

Numa ilustração de Manuel Monterroso (1876-1968), discípulo de Rafael Bordalo Pinheiro, médico, professor e caricaturista do Porto, vemos Guilherme Gomes Fernandes (inspector-geral do Serviço de Incêndios da cidade Invicta, que comandou a equipa vencedora), claro está, retratado de forma caricatural, a ser saudado pelo inconfundível Zé Povinho, vendo-se ao fundo a emblemática Torre Eiffel.

Fiel ao seu perfil editorial, consubstanciado no desencanto face à evolução política e económica do país, o mesmo periódico complementou a presente caricatura com um acutilante soneto, assinado por Abílio (talvez o grande Abílio Manuel Guerra Junqueiro, poeta panfletário), que não resistimos a transcrever:


Lá do Sena nas margens decantadas,

n'aquella colossal exposição, 

apresentamos nós um pavilhão 

que fez rir bandeiras despregadas. 


Um desastre! Mas, em compensação, 

a respeito de bombas bem montadas, 

deixamos as nações abananadas, 

e fizemos um grande figurão. 


Mostramos finalmente o que valemos, 

e que, filhos de heroes, nunca tememos 

esses cartazes que Reillac escreve.


Honra, dinheiro, brio, não teremos,

Mas – caramba! – que ao menos já sabemos

tratar de bombas, que é officio leve! 


Importa esclarecer que as citadas palavras não só valorizam o feito dos nossos bombeiros como o comparam, à boa maneira de "A Paródia", com o contexto social da época, nomeadamente, a fragilizada imagem de Portugal no exterior, quer ao nível da sua participação na Exposição Universal, quer devido a um polémico empréstimo solicitado pelo governo a banqueiros franceses, o qual deu origem, em Paris, a uma onda de cartazes difamatórios visando a nação.


NHistoria.jpgSobre o feito


A prova dos bombeiros portugueses verificou-se no dia 18 Agosto, perante numerosa assistência, tendo como tema a extinção de um incêndio num prédio de 20 metros, com três salvamentos (duas pessoas no 5.º andar e uma no 6.º). Para o seu cumprimento, o júri estabeleceu o tempo máximo de 15 minutos. Os bombeiros americanos (vencedores em três concursos) foram os primeiros a ser chamados, perfazendo 15 minutos. Seguidamente, os húngaros cumpriram o exercício em 16 minutos. Portugal tratou-se do terceiro país a entrar em campo a fim de prestar provas. Reza a história que Guilherme Gomes Fernandes apitou e a representação nacional dirigiu-se de imediato para o esqueleto de madeira instalado junto à pista do hipódromo, simulador do edifício incendiado, desenvolvendo o tema no tempo recorde de 2 minutos e 56 segundos.

"(...) os valentes rapazes correm ao predio incendiado, com um sangue frio, que desde logo lhes conquista todas as sympathias. Armam escadas, lançam as cordas, trepam pelo esqueleto com uma agilidade extraordinária e o problema é triumphantemente resolvido", descreve o correspondente do "Jornal dos Bombeiros", no seu artigo sobre a cobertura do evento.

A esquadra, conforme então se designava, não havia efectuado qualquer treino antes da prova e muito menos tinha conhecimento das condições do esqueleto.

Após o exercício, o público que se encontrava nas bancadas invadiu o recinto, dispensando calorosos aplausos aos bombeiros portugueses pela rapidez e eficiência demonstradas. Houve até quem, entre a multidão, afirmasse: "São bombeiros gatos."

Devido ao tempo realizado, considerado inatingível, as restantes 17 delegações que ainda iriam desenvolver o tema acabaram por apresentar a sua desistência.

O Presidente da República Francesa, Émile Loubet, saudando a equipa vitoriosa, ergueu o seu chapéu e disse: "Vivam os bombeiros portugueses. Viva Portugal!"

O mesmo chefe de Estado viria mais tarde, ao elogiar Guilherme Gomes Fernandes, durante o banquete de honra do concurso, a proferir outra não menos significativa expressão que a história regista nos seus anais: "Diga ao vosso Governo que, quando Portugal necessitar de alguma coisa da França, mande como seus embaixadores os seus bombeiros."

Como prémios, o Corpo de Salvação Pública do Porto trouxe para Portugal uma Taça de Sèvres, oferta do Presidente da República da França, e 1500 francos.

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