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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

23/07/2018

14:39

Os bombeiros portugueses

05/07/2018 16:19:32

e o Presidente do Conselho

 

Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista

 

nhpm1.jpg27 de Julho de 1970. Morria o ex-presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, vítima de complicações relacionadas com um hematoma cerebral, contraído dois anos antes, em consequência de uma queda.

O facto, aguardado há muito tempo, porquanto o estado de saúde do estadista agravara-se dia após dia, motivou inúmeras reacções de consternação por parte dos vários sectores da sociedade, incluindo o dos Bombeiros.

A par dos telegramas de condolências remetidos pelas direcções e comandos e da bandeira nacional a meia-haste nos quartéis, pois fora decretado luto nacional, também a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) se associou às últimas homenagens prestadas ao antigo presidente do Conselho, cujo funeral teve honras de Estado.

Como tal, e numa abordagem estritamente histórica, ou antes, "alheios a qualquer intenção política", parafraseando o então publicado pela LBP, reproduzimos a página do Boletim desta (Julho-Dezembro 1970), através da qual decidiu prestar a última homenagem ao homem que, por analogia, refere ter sido "Bombeiro Voluntário".

Tanto quanto sabemos, a relação entre Salazar e a Instituição-Bombeiros estabeleceu-se de modo reservado.

Exceptuando a homenagem que lhe foi prestada a 4 de Maio de 1941, em Lisboa, no Terreiro do Paço, numa iniciativa da Federação Portuguesa das Sociedades de Educação, Recreio e Desporto, com o patrocínio do jornal “O Século” e a aderência da Liga dos Bombeiros Portugueses, foram praticamente nulas as aparições do dirigente máximo do regime do Estado Novo, por ocasião de actos públicos envolvendo os bombeiros portugueses.

Na mesma homenagem, ao serem-lhe expostas as aspirações do sector, pelo presidente da LBP, José Manuel Pires, Salazar afirmou: "Sei que tendes alguns pequenos pedidos a fazer. Uns já se podem considerar satisfeitos. Os outros serão estudados e, logo que isso seja possível, realizados."

Antes, porém, quando o presidente do Conselho sofreu um atentado bombista, no dia 4 de Julho de 1937, na Avenida Barbosa du Bocage, em Lisboa, sabe-se que os bombeiros fizeram parte das organizações do país que endereçaram mensagens de congratulação por o governante ter saído ileso.

Anos mais tarde, em 1968, após operação ao cérebro (7 de Setembro) e vitimado por acidente vascular (16 de Setembro), seria a vez de uma delegação se deslocar à Casa de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, onde esteve internado, a fim de saber da evolução do seu quadro clínico. Assim aconteceu a 18 de Outubro, por ocasião do XVIII Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses, reunido em Lisboa, sobre o que informa a respectiva acta:

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"Às 12 horas, o senhor presidente da Mesa deu por concluídos os trabalhos para que os componentes da Mesa do Congresso e os participantes que o desejassem fazer, se deslocassem à Casa de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, a fim de, em representação de todos os bombeiros portugueses, inscreverem os seus nomes no livro de cumprimentos ao senhor presidente doutor António de Oliveira Salazar e se inteirassem das suas melhoras."

A queda que atingira o governante, provocando-lhe um hematoma cerebral, ocorrera pouco tempo antes (3 de Agosto), no Forte de Santo António do Estoril, durante o período de férias.

 

Por sua vez, a deslocação à Casa de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa efectuou-se numa data em que o presidente do Conselho já era Marcello Caetano (nomeado no dia 27 de Setembro). Vivia-se um momento de tensão no seio político, ao ponto de o Presidente da República, almirante Américo Tomás, ter-se negado a intervir na sessão de abertura do XVIII Congresso (16 de Outubro). Salazar poderia morrer a qualquer momento. O Chefe de Estado compareceu no acto, realizado na Sala Portugal, da Sociedade de Geografia de Lisboa, e ocupou o lugar de honra, mas coube, em seu nome, ao ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, declarar abertos os trabalhos da reunião magna. Em termos protocolares, o sucedido forçou o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, António de Moura e Silva, a prolongar o seu discurso, extrapolando tudo quanto havia previsto pronunciar, recordou-nos o próprio, em vida, numa das muitas e interessantes conversas que, na base de uma amizade recíproca, tivemos o privilégio de manter com tão prestigiada figura, reconhecida tanto ao nível dos bombeiros em Portugal como no âmbito do Comité Técnico Internacional do Fogo (CTIF).

Não fazemos juízo a respeito do silêncio mantido pelo então Presidente da República, perante os legítimos representantes dos bombeiros portugueses, provavelmente, na expectativa de ouvirem palavras de estímulo e confiança do mais alto magistrado da nação. O certo é que apenas passados dois anos sobre a opção tomada por Américo Tomás o país viveu a morte do venerado "Salvador da Pátria".

 

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico


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