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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

sexta-feira,

17/11/2017

17:26

O que transportavam as antigas viaturas?

04/08/2017 10:39:19

Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista


Hoje, tal como ontem, continuam a ser apreciadas viaturas, embora com função radicalmente distinta.

As transformações próprias da evolução dos tempos determinaram, em diferentes períodos, a sua retirada de circulação, passando a assumir o estatuto de velhas glórias do socorro.

Por discutíveis vicissitudes, muitas – muitas, mesmo – não resistiram até aos nossos dias, pelo que o parque histórico automóvel dos bombeiros portugueses poderia ser mais variado e valioso.

NHBP_1.jpgA especial sensibilidade de certos responsáveis contribuiu para que, no continente e nas regiões autónomas, tivessem ficado para a posteridade alguns dos melhores exemplares, sobretudo, pronto-socorros e auto-macas.

Obtidas com elevado sacrifício, pelas entidades detentoras dos Corpos de Bombeiros, representam, também, muita da perseverança colocada por sucessivas gerações de dirigentes, comandos e bombeiros, no exercício das suas funções, relativamente à dotação de meios operacionais.

De linhas vistosas e elegantes, estamos diante, na sua esmagadora maioria, de viaturas destinadas ao transporte de pessoal e material, pois não dispunham de depósitos de água, motivando por isso, aos bombeiros, aturados esforços no combate aos incêndios de toda a espécie. Aliás, a este respeito e para melhor compreensão da antiga realidade, recordamos, a título de exemplo, extraídas do “Elucidário do Bombeiro”, publicado em 1926, da autoria de Alfredo dos Santos e de Amadeu César da Silva, as seguintes recomendações técnicas, aplicáveis aos incêndios florestais e rurais:

“No combate aos fogos em matas, florestas, pinhais, etc., além da agua, se a houver, areia, terra e ferramentas apropriadas, empregam-se ramos verdes e, em especial, molhos de caniços. E se o fogo, pela sua intensidade, resistir a esses meios de ataque, deve procurar-se intercepta-lo, derrubando, na extensão necessária, três ou quatro filas de arvores, ou mais, retirando-as para longe e limpando a faxa de terreno, que elas ocupavam, de mato e folhas sêcas. E’ este o ultimo e o mais seguro recurso para deter a marcha das chamas.”

Embora muitas das viaturas em apreço configurem, aos olhos de hoje, dispositivos rudimentares e até inseguros, a verdade é que serviram sempre os objectivos para que foram destinadas, não havendo memória de algum incêndio ou outro tipo sinistro ter ficado por resolver. Mesmo quando o seu acesso era dificultado pelo acidentado do terreno, impedindo uma intervenção mais directa, os seus ocupantes nunca se deixaram vencer.

Na maior parte dos casos idealizadas e carroçadas por elementos dos quadros activos, em improvisadas oficinas instaladas nos respectivos quartéis, transportavam tudo o que era mais necessário.

Algumas plantas de viaturas em poder do Núcleo de História e Património Museológico da Liga dos Bombeiros Portugueses dão bem ideia, com enorme minúcia, dos recursos técnicos de outrora.

Falamos de inestimáveis elementos de estudo e, nalguns casos, de verdadeiras obras de expressão plástica, que justificam ser mostradas e devidamente apreciadas, razão pela qual reproduzimos duas delas, da autoria do saudoso conservador do ex-Museu Júlio Cardoso, Francisco Rodrigues, desenhador técnico da CP.

No segundo capítulo de “O Elucidário do Bombeiro”, intitulado “Nomenclatura de material, utensílios e acessórios”, encontramos uma não menos interessante referência àquilo que devia comportar um “auto de pronto socorro, ou de primeiro socorro”, também definida como “viatura de rápido andamento, que transporta o material, ferramentas e utensílios indispensáveis para um primeiro ataque a um fogo ou salvamento de vidas”.

É, pois, elencando um vasto conjunto de peças que terminamos o presente apontamento, convidando o leitor a fazer uso da sua capacidade de imaginação e, como quem observa uma viatura antiga e os seus cofres, a seguir a lógica da seguinte lista de material:

NHBP_2.jpg3 Lanços de escadas de molas de 3,90m cada um; 2 escadas de ganchos; 3 agulhetas; 2 alavancas; 1 bandoleira; 2 baldes de ferro; 2 baldes de lona; 13 lanços de mangueira de 0,50m; 1 maca de lona; 2 suspensões para a mesma; 2 varas para a mesma; 1 escafandro; 1 desforradeira; 2 forquilhas médias; 1 lanterna ou lâmpada eléctrica portátil; 1 coto de mangueira; 2 chaves de cruzeta; 1 dita de mangueiras; 2 espias grossas; 2 espias finas; 1 dita de trabalho; 2 estancadores; 2 enxadas; 2 gadanhos; 1 machado de carro; 1 marreta; 1 picareta; 2 pás; 1 serrote sem cotas; 1 tesoura mecânica; 1 trado; 1 martelo de orelhas; 2 francaletes de gancho; 2 francaletes de sela; 2 francaletes de fivela; 1 par de luvas de borracha; 2 sacos com areia; 1 ramal com duas saídas; 1 tampão de boca de incêndio; 1 bomba americana (ou moto-bomba), com os respectivos pertences; 1 bomba cisterna (bombinha); 1 garrafa com vinagre (*); 1 caixa com cloreto de cal (**).

(*)(**) – De acordo com a noção técnica vigente em 1926: “Estes produtos são indispensáveis nas cidades e outras povoações onde haja colectores de esgôto, para se obter o cloro que permite a entrada ali.”


 “LIS50”: Uma história sobre meios-auto

 

Chama-se “LIS50” e é um site de características históricas que aborda a grande fase da motorização dos corpos de bombeiros da cidade de Lisboa, verificada entre 1930 e 1979.

NHBP_3.jpgIniciativa privada sem fins lucrativos, encontra-se acessível através do domínio www.lis50, contemplando, de forma detalhada, um vasto lote de informação relativa a viaturas que estiveram ao serviço do então Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa, Bombeiros Voluntários de Lisboa, Bombeiros Voluntários da Ajuda, Bombeiros Voluntários Lisbonenses, Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, Bombeiros Voluntários da Cruz de Malta, Bombeiros Voluntários do Beato e Olivais e Bombeiros Voluntários de Cabo Ruivo. De igual modo é dedicada especial atenção aos historiais de cada uma das associações e corpos de bombeiros.

De acordo com a equipa de “LIS50”, “a viabilização da presente iniciativa apenas se tornou possível pela conjugação de numerosos e generosos contributos, quer de cariz institucional (RSB, CBVs, LBP) quer ainda (e cumulativamente) oriundos de bombeiros (com e sem farda), historiadores e observadores atentos e interessados relativamente à realidade pretérita a que nos reportamos”.

Estruturalmente bem concebida, trata-se de uma plataforma muito útil e de fácil consulta, também disponível em inglês, pelo que reúne todas as condições para ser um meio de difusão planetária dos bombeiros portugueses.

Para além de sugestivas imagens fotográficas, o site reserva ainda informação suplementar sobre detalhes de equipamentos e fardamentos, bem como as tipologias das viaturas representadas.

“Por razões de rigor histórico aceitam-se e agradecem-se todos os contributos válidos, institucionais ou individuais, tendentes a complementar ou a aperfeiçoar os elementos factuais e as imagens aqui constantes”, refere a equipa de “LIS50”, no site, motivada em aprofundar uma dinâmica de partilha.


Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico


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