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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

23/07/2018

14:40

LISBOA – 74

01/02/2018 17:03:36

Os bombeiros de Portugal no alvor da democracia


Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista


ll.jpgO primeiro congresso dos bombeiros portugueses após o 25 de Abril de 1974 realizou-se num período de todo atípico, isto é, entre 31 de Outubro e 3 de Novembro daquele ano, derivado às transformações saídas da nova ordem política instaurada no país.

Inicialmente prevista para Castelo Branco ou Tomar, a reunião magna acabou por ter lugar na capital, nas instalações da Feira Internacional de Lisboa.

Apesar do carácter apolítico da Instituição-Bombeiros, a situação recém-vigente fez-se repercutir, inevitavelmente, nos trabalhos daquela que veio a ficar marcada como sendo "uma jornada de confraternização do voluntariado e ao mesmo tempo de uma chamada de atenção para os problemas dos bombeiros portugueses".

O último facto da citação ficou bem espelhado na acutilante tese dos Bombeiros do Distrito de Aveiro, apresentada por David Cristo, presidente da Direcção da Companhia de Salvação Pública "Guilherme Gomes Fernandes", de Aveiro (Bombeiros Novos), subordinada ao tema "Voluntariado: ainda uma esperança – apesar do quase nada que se fez sobre o muito que se disse".

Na verdade, desde 1970, que os responsáveis pelos bombeiros portugueses vinham reclamando, junto do Governo, a criação dum órgão nacional de socorrismo, não vendo satisfeita esta e outras legítimas aspirações.

O quotidiano das vulgarmente designadas "corporações de bombeiros" via-se configurado, na sua esmagadora maioria, num quadro de miserabilismo.

Aliás, a imagem que apresentamos relativa ao desfile de encerramento, onde se destacam, para a altura, incipientes e obsoletas viaturas, traduz o sentido das exigências dos congressistas, tal como "o apetrechamento dos corpos de bombeiros com material suficiente para todas as missões: normalizado, eficiente e sempre actualizado".

Paralelamente, e uma vez consideradas outras necessidades, que não apenas um carro e uma mangueira, o primeiro congresso nacional dos bombeiros, no Portugal democrático, clamou, ainda, inspirado na tese de Aveiro: "a promoção social e pessoal do voluntário, concedendo aos homens e às corporações que servem justas regalias", bem como "estimar o voluntário na sua real valia, garantindo-se-lhe amparo suficiente e, a todos os níveis, condigna representatividade".

Ansiava-se, no fundo, mais do que nunca, pela "verdadeira reestruturação dos bombeiros portugueses", tendo por base os ventos de mudança e os sinais de uma nova sensibilidade governativa perante os problemas do voluntariado.

Por influência directa da Liga dos Bombeiros Portugueses, entretanto organizada em federações distritais, e de uma dinâmica no dirigismo nunca antes vista que veio a despontar, a nível nacional, após o Congresso de Lisboa, o ano de 1979 ficaria consagrado como verdadeira coroa de glória através da institucionalização do Serviço Nacional de Bombeiros (SNB), organismo que, acompanhado de adequada legislação para o sector e agindo no escrupuloso respeito pelo interesse dos bombeiros portugueses e do país, guindou, progressivamente, os corpos de bombeiros a um apreciável patamar de modernidade e eficácia.

A abertura do 21.º Congresso contou com a presença do ministro da Administração Interna, tenente-coronel Manuel da Costa Brás, enquanto o encerramento mereceu a comparência do representante do Presidente da República, general Francisco da Costa Gomes, general Fontes Pereira de Melo, chefe da Casa Militar.

No desfile apeado e motorizado, com percurso ao longo da Avenida da Liberdade, participaram "141 corporações, com 287 viaturas, das quais 174 de combate a incêndios, incluindo uma dezena de auto-tanques, seis auto-escadas, três carros-oficinas, seis viaturas ligeiras especiais e 99 ambulâncias".

Segundo imprensa da época, o público "aclamou vibrantemente" os bombeiros na sua passagem.

O comando do desfile esteve a cargo do comandante eng.º José de Oliveira e Silva, dos Bombeiros Voluntários de Leixões, secretário do Congresso, em representação do vice-presidente do mesmo órgão, comandante eng.º Pedro F. de Albuquerque Barbosa, dos Bombeiros Voluntários Portuenses.

Como curiosidade histórica caracterizadora do momento, por razões conjunturais da política em curso conducente ao termo do colonialismo e também de modo a evitar eventuais problemas num período de natural efervescência, os comandantes em representação dos corpos de bombeiros de Angola foram aconselhados a desfilar envergando a farda azul, ao invés da farda branca desde sempre usada naquele tipo de ocasião. "Se não formos de branco, não vamos!"- responderam, inconformados, os comandantes. "E não foram", recorda o blogue de homenagem ao comandante Armando Cardoso Soares.

Finalmente, de referir que o Congresso de Lisboa elegeu para presidente do então Conselho Administrativo e Técnico da LBP (biénio 1975-1976) o padre Vítor Melícias, presidente da Direcção dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, sucedendo a António Moura e Silva, personalidade de créditos firmados, líder da confederação durante cerca de 20 anos (1955-1975).



Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

Site do NHPM da LBP:

www.lbpmemoria.wix.com/nucleomuseologico 

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