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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quarta-feira,

19/09/2018

00:48

Profissionais em regime de voluntariado

01/02/2018 16:23:12


jbp.jpgA profissionalização do setor está na ordem do dia, como se esta fosse uma questão nova ou estranha. Há muito que a qualidade e a prontidão do serviço prestado obriga as associações a investir nos recursos humanos que permitam o bom funcionamento dos quartéis, a total operacionalidade dos meios e prontidão na resposta.

Por outro lado, dá jeito misturar tudo, desde logo a profissionalização nos quartéis com a profissionalização dos bombeiros, nesta linha o assalariado é promovido a profissional em detrimento do voluntário equiparado a um “curioso”, e, assim sendo, lá surgem cismas em relação aos conhecimentos, à formação técnica prática e académica, à preparação e ao treino dos bombeiros. Depois deste ataque fortuito à estrutura – meio camuflado – os políticos incólumes, ainda que sem políticas, anunciam uma reforma de milhões, para que, após as tragédias, “nada fique como dantes”. “Todos” estão convocados para este novo desígnio nacional, ainda que o apelo surja numa espécie de discurso metonímico, que deixa por definir o papel da parte – de cada um dos envolvidos – nomeadamente o dos bombeiros

Lamentavelmente, a confusão e a vozearia dos últimos meses serviram apenas para sustentar a estratégia de defesa do indefensável ou de justificação do injustificável.

Cada vez parece ser mais consensual que a “profissionalização” favorece, serve ou permite incentivar o voluntariado. Não existindo menos bombeiros, a disponibilidade dos altruístas da causa, profissionais de várias áreas, é inversamente proporcional às exigências quotidianas de um quartel.

Ainda assim, ainda que sem incentivos, milhares de mulheres e homens sacrificam a família, os amigos, o descanso e o ócio, ainda põem em risco a própria vida para se entregarem à mais nobre das missões o que implica, sublinhe-se, muitas horas de formação e treino e o cumprimento de uma escala apertada, até porque só a opção foi voluntária, mas na ação todos são profissionais.

Num destes dias estivemos à conversa com o comandante dos Voluntários da Marinha Grande que, em jeito de desabafo, lamentava o “grande fluxo de entradas e saídas” de bombeiros verificado no seu quartel. Vítor Graça revelava ainda que, nos últimos seis anos, perdeu 27 operacionais. Essa redução do quadro ativo implica um esforço acrescido aos que recusam virar costas à comunidade, ainda que essa teimosia tenha um custo elevado. Um voluntário na Marinha Grande é obrigado a efetuar quatro serviços noturnos por mês e 20 diurnos (12 horas aos sábados domingos ou feriados), o que, segundo contas feitas pelo comandante, se traduz em 816 horas, o que equivale a 102 dias ou seja, quase cinco meses de trabalho voluntário, a custo zero, garantido por operacionais qualificados.

Perante este exemplo, um de muitos que ilustram a atividade dos corpos de bombeiros por todo o País, fica a dúvida se o Estado teria condições e milhões para abdicar desta força de trabalho, que seria uma mais-valia em qualquer parte do mundo, mas que, por cá, é desvalorizada.

Se por um lado, as Equipas de Intervenção Permanente que permitiram apoiar e valorizar o esforço dos voluntários, chegam aos quartéis a conta-gotas, por outro o reivindicado cartão social do bombeiro não passa de promessa adiada e que, ainda não sendo uma medida estrutural, permitiria conferir estatuto ao bombeiro, evidenciar a descriminação positiva que se impõe para quem dá tanto e exige quase nada.

 

Sofia Ribeiro

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