PUB

Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

sexta-feira,

17/11/2017

17:36

“Depois de casa roubada, trancas à porta”

03/11/2017 09:49:05

Diz o povo, sempre sábio, que “depois de casa roubada, trancas à porta” e essa parece ser mesmo a máxima, o fado ou um destino desta nação, que raramente previne e, por isso mesmo, acaba sempre no remedeio.

No balanço de um verão fatídico, pesam as mortes, os danos irrecuperáveis e os incalculáveis e uma tristeza profunda e generalizada. Portugal está de luto, reduzido a cinza no seu âmago.

JORNAL@_FOTO-LUSA.jpg

(Quase) Tudo falhou nesta “época de incêndios” talvez porque todas as tragédias aconteceram fora de época, antes e depois da Fase Charlie. Não obstante todos avisos, mas, sobretudo, dos ameaços climatéricos e dos fenómenos atípicos, imperou o laxismo ou uma ininteligível segurança numa estrutura, que tanto em junho, como em outubro, se apresentava a meio gás, desfalcada de meios e de homens.

Mais de uma centena de mortos e centenas de milhares de hectares de área ardida, milhões de prejuízos, fizeram cair a ministra, que - sabe-se agora - logo após os incêndios de junho, teria pedido escusa de funções, demitiu-se o presidente da Autoridade Nacional de Proteção Civil e o secretário de Estado saiu de cena. Semanas antes, o comandante nacional era forçado a abandonar a missão na sequência de uma investigação jornalística, que colocava em causa a formação académica, mas não a competência operacional para o cargo que ocupou durante cerca de nove meses.

O fogo que incinerou a pátria, obrigou Marcelo Rebelo de Sousa a exigir desculpas, responsabilidades e ações, fazendo questão de denunciar, de mostrar a fragilidade de novos e velhos que o Estado não soube proteger. Confortou, abraçou, motivou, criticou e assumiu o papel do porta-voz de quem tudo perdeu, dando voz e rosto às vítimas, mas também aos bombeiros que acabaram por ser apanhados e apontados pela inércia ou incompetência de quem manda e comanda.

Perante tudo isto “nada poderá ficar como antes”, porque as “mortes não podem ser em vão” esse é pelo menos a convicção ou a esperança de um povo que sabe bem que este é um desígnio que não se alcança com o ritual da “dança das cadeiras”, exige algo de mais sério, concreto, profundo, leia-se estrutural.

Da polémica de um Portugal revoltado sai um novo ministro, um secretário e uma nova secretaria de estado. Em conselho de ministros o governo, debaixo de fogo, responde com um conjunto de anúncios apresentado como reforma da proteção civil, tentando, assim, assegurar as respostas que durante este verão de 2017 não chegaram.

Entretanto, o novo titular a pasta da administração Interna decidiu pedir à Inspeção Geral da Administração Interna (IGAI) a realização de uma auditoria à Autoridade Nacional de Proteção Civil, que visa o apuramento de “eventuais” responsabilidades.

E embora seja mau o augúrio para um futuro sustentado por chavões e frases feitas, importa não desistir, não perder a coragem para reerguer o País. É preciso acreditar que, como num passado recente, quando as mortes de oito bombeiros, nos também terríveis incêndios de 2013, obrigaram o Estado estabelecer como prioridade proteção individual e a segurança dos operacionais no combate dos incêndios florestais, um “ganho” é certo, mas que alerta para outras necessidades, porque afinal os bombeiros cumprem tantas outras missões, que carecem, também, de equipamentos e meios apropriados.

Findo o período de reflexão, de análise de relatórios e estudos e encerrada a época de caça às bruxas, importa dar condições de trabalho aos nossos bombeiros, para que possam continuar a fazer o que fazem bem, para que possam recuperar o ânimo e a força que esmoreceram, sobretudo, às mulheres e aos homens que enfrentaram o inferno nos locais mais fustigados pela tragédia e lutam com a frustração de terem sido poucos para chegar a tanto.

Obrigada, mais uma vez, Bombeiros de Portugal!

 Sofia Ribeiro

PUB