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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

23/01/2017

18:47

INCÊNDIOS FLORESTAIS

Presidente da LBP exige mão pesada

01/09/2016 12:44:37

no combate ao “terrorismo”

 

Três mortos, mais de duas centenas de habitações dizimadas, outras tantas danificadas e mais de 100 mil hectares de floresta e mato reduzidos a cinza são apenas alguns dos números do balanço trágico dos primeiros 15 dias de um agosto horribilis, que não deu descanso aos bombeiros portugueses ateou focos de discórdia, atiçou o fogo das acusações e alimentou um pasto de promessas e compromissos políticos.

 

Sofia Ribeiro (texto)

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Depois de julho muito quente, mas calmo em matéria de fogos, com um número de ocorrências, consideravelmente inferior à média dos anos anteriores, entra agosto e em poucos dias, a área ardida em Portugal já representava mais de metade (54 por cento) da consumida em toda a União Europeia, segundo dados do Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais (EFFIS).

O 5.º Relatório Provisório de Incêndios Florestais (2016) do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) a que o jornal Bombeiros de Portugal teve acesso regista que “a área ardida entre 1 e 15 de agosto, contabiliza 95.357 hectares de espaços florestais, quase 93% da área total ardida em Portugal Continental, que se cifra nos 103.137 hectares. Importa assinalar que a “estatística consolidada” do ICNF não contabiliza os fogos em área agrícola.

Só no dia 8 de agosto, no continente, arderam mais de 46200 hectares, quase tanto como em todo o ano de 2015, uma área superior à de 2013, quando no combate aos incêndios pereceram oito bombeiros.

4.jpgEm Portugal, no continente e na Madeira, arderam nos primeiros 15 dias de agosto mais 100 mil hectares de floresta e mato, balanço negro, mais ainda quando revela que as chamas, na designada Pérola do Atlântico, ceifaram a vida de três pessoas, desalojaram cerca de mil e destruíram ou danificaram mais de duzentas habitações causando prejuízos na ordem das dezenas de milhões de euros. No continente assinalam-se, também, avultadas perdas, designadamente a norte.

Perante do dramatismo de um país em chamas o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) Jaime Soares alertava para o que classificou “autêntico terrorismo”, dando conta que “98% dos fogos tem origem na mão humana e 75% são de origem criminosa”, exigindo mão pesada para os criminosos “mais vigilância, mais gente, mais força e modernização dos postos de vigia”.

O calor não dava tréguas tendo o país enfrentando 10 longos dias em alerta laranja. Segundo dados da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) na primeira quinzena de agosto registaram-se 3925 ocorrências que envolveram 91058 operacionais, apoiados por 24321 viaturas e 1571 missões dos meios aéreos.

O Porto foi o distrito mais flagelado em número de incêndios (1280), seguido de Braga (466) e logo depois de Aveiro (435), segundo revelou a ANPC. Já no que concerne à área ardida, o ICNF revela que Aveiro foi o território “mais afetado”, com 41569 hectares, cerca de 40 por cento da área total ardida neste período, seguido de Viana do Castelo (23197 ha). O relatório provisório de incêndios florestais destaca ainda que “mais de 60% da área ardida no distrito de Aveiro corresponde a uma única ocorrência que teve início na freguesia de Janarde, concelho de Arouca, e que consumiu 25116 ha de espaços florestais”.

Enquanto Portugal ardia, inflamavam-se os ânimos, com acusações várias, desde logo às autoridades da Madeira, por terem protelado o pedido de auxílio ao continente, ao reduzido número de meios aéreos colocados no combate às chamas, aos erros no comando das operações e à falta de meios e homens em algumas áreas, nomeadamente em São Pedro de Sul.

Portugal acionou o mecanismo europeu de proteção civil garantiu alguns meios aéreos e o reforço de três Canadair vindos de Itália e Espanha, a que juntaram outros dois oriundos de Marrocos e  dois aviões Beriev russos.

2.jpgO País mais uma vez voltou a discutir os (des)ordenamento do território e da floresta,  o agravamento de penas para os incendiários, o regresso da  Força Aérea no combate aos incêndios. Primeiro-ministro, ministra e secretários de estado da administração Interna, desdobram-se em visitas às áreas queimadas solidarizando-se com os milhares de cidadãos lesados em mais uma “época de incêndios” e prometendo mais medidas ao nível da prevenção, anunciando a utilização de fundos comunitários para apoiar zonas atingidas pelos fogos. O presidente da República assumiu o compromisso de fazer parte da solução, exigindo, desde logo, “eficácia da justiça” na punição dos criminosos, alertando para a necessária intervenção nos domínios da prevenção e do ordenamento florestal, sublinhando que estará atento e acompanhará de “muito de perto" as decisões políticas que, defendeu, devem ser tomadas, ainda no rescaldo de mais um verão negro, para que os incêndios deixem de ser uma espécie de inevitabilidade.

E quando o país clama por justiça, tendo em conta que a grande maioria das ocorrências tem mão humana, as autoridades vão respondendo com uma verdadeira “caça” aos incendiários. Este ano, a PJ já identificou e deteve cerca de quatro dezenas de pessoas pela autoria deste crime que muitos querem ver punido com pena máxima de prisão.

Inquérito “deverá apurar todas as responsabilidades”

 

1.JPGNo desespero de um Portugal em chamas, houve ainda espaço à polémica e à troca de acusações, designadamente em São Pedro do Sul de onde chegaram denúncias da falta e, também, da descoordenação de meios que levaram o governo a abrir um inquérito à forma como foi combatido o incêndio naquele concelho.

O presidente da autarquia Vitor Figueiredo sustentou que o concelho esteve “durante quatro dias sem qualquer apoio” o que permitiu que o fogo tivesse devorado cerca de 12 mil hectares de floresta e mato, uma “área muito grande, provavelmente equiparada a um terço ou um quarto do concelho".

“Tínhamos uma frente quase com 16 quilómetros e apenas cerca de 30 ou 40 voluntários para a combater. Nunca tivemos apoio das entidades oficiais. O fogo foi progredindo e atingimos um ponto em que a situação foi catastrófica”, disse, na ocasião, o autarca.

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As críticas de Vitor Figueiredo motivaram outras tantas de Jaime Marta Soares. O presidente da LBP aplaude a iniciativa da tutela que “deverá apurar todas as responsabilidades” sustentando que na sua deslocação a São Pedro do Sul, para se inteirar da situação e dar uma palavra de incentivo às centenas de bombeiros que se encontrava no teatro de operações, encontrou “povoações sem serem protegidas, estradas sem qualquer tipo de limpeza floresta sem qualquer planeamento ou ordenamento”, acentuando ainda não ter visto no perímetro que ardeu “alguma balsa de água ou um ponto de água”.

Jaime Marta Soais, que enalteceu o esforço do soldados da paz no ataque a esta e muitas outras frentes de fogo pelo País, disse esperar “calmamente” pelo inquérito, salientando, no entanto, que esta averiguação não deve deixar ninguém nem nada de fora, “deve incluir todos e tudo, nomeadamente aquilo que tem sido o desrespeito pela Lei, por parte do senhor presidente da câmara municipal”.

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