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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

domingo,

21/10/2018

21:53

Visibilidade nem sempre é representatividade

07/03/2018 16:07:22


CASFORM18.jpgNa sociedade moderna, assente no consumo da comunicação, célere, acrítica e volumosa, com que nos vamos anestesiando, é comum surgirem situações algo bizarras, diria até terroristas, em que, sabe-se lá de onde e porquê, despontam algumas figuras que se popularizam pela veia opinativa em torno de tudo aquilo que mexa e surta efeito, em particular para proveito próprio ou interesses associados mas que, em abono da verdade, apenas redundam na polémica estéril e na intrigalhada ínvia.

Nos tempos que correm, não há grupo nem domínio social que não disponha de figuras desse jaez, fruto da verborreia própria de quem fala muito sem dizer nada e da ignorância alheia, adversa ao essencial e próxima do acessório, do boato e outros tantos epítetos que facilmente podemos apontar.

As estruturas, os grupos sociais valem habitualmente pelo que são na realidade, mas não pelo que alguns apenas dizem ou querem fazer crer ser a sua realidade. Parecem matérias simples de distinguir, entre o que é, o que não é a realidade mas, de facto, é comum surgirem situações em que se misturam, com consequências conhecidas na elegia a quem é apenas mais vivaço ou atrevido.

O mal de tudo isto, em meu entendimento, não está nas ferramentas, ou seja, nos diferentes meios de comunicação ao dispor, mas no uso que deles é feito. Acresce também, muitas vezes, a desatenção e o desconhecimento sobre as matérias versadas por parte de quem consome essa comunicação mas, mesmo assim, acha saber.

Passa-se de um modo geral em toda a sociedade. Quando o confronto directo é ineficaz ou fracassado, nomeadamente por via do sufrágio directo, democrático, então há quem passe a utilizar outro tipo de estratégia, ínvia, subterrânea, ardilosa e, por vezes até cobarde e hipócrita.

Estaremos então perante tentativas de influenciar indirectamente, quase subliminar, minar, manipular e desacreditar os outros. Para isso é comum fazer-se apelo a um discurso aparentemente inocente, diria até pueril, mas porventura eivado de outros sentimentos, nem nobres nem leais, e muito menos éticos, com fedor a propaganda infecta de quem só está bem a partir e dividir para reinar. De facto, há nos grupos sociais, em todos sublinhe-se, figuras, ou melhor, figurinhas, apostadas em lógicas e tentativas divisionistas e desconstrutoras, calculistas e arrogantes para os restantes, demonstrativas de falta de carácter, autenticidade e honestidade intelectual que só ganham espaço, mesmo que efémero, porque há gente desatenta, indiferente que não os sabe por no lugar próprio.

É sabido que a união faz a força e que a desunião faz ou pode contribuir para o enfraquecimento. Com a agravante de que haja quem defenda, imagine-se, que é necessário partir para depois unir, sabe-se lá o quê.

Em termos da chamada geopolítica, a vontade de suscitar e provocar esse ponto de ruptura, a expressão anglo-saxónica “breaking point”, não é mais do que minar os vizinhos, suscitar um calcanhar de Aquiles através de um processo de divisionismo e enfraquecimento entre nações ou, no caso, entre grupo ou dentro do próprio.

Para os estrategas militares, longe do campo de batalha directo, todos os processos fomentados e orquestrados da sombra e de forma subversiva, nos tempos que correm, têm a vantagem de ser mais eficazes e menos onerosos em vidas humanas e recursos. E isso pode aplicar-se a muitas situações surgidas na sociedade em geral ou nos grupos sociais em particular.

Não está em causa, nem pode alguma vez estar, o direito à crítica, o direito a opinar seja em que sentido for. O que está em causa são as formas ínvias e torpes como essa opinião tantas vezes se exerce, sem olhar a quem, sem olhar a quê, assente apenas em interesses pessoais ou de grupos marginais.

Porque, quem o quer fazer bem, fá-lo no seio da sociedade ou do grupo social respectivo no tempo e no modo próprio.

E, a propósito disso tudo, importa questionarmo-nos e procurar saber com que base e a que título é que uns, em especial, têm frequentemente palco para opinar sobre as mais variadas matérias. É condição, à partida, independentemente da opinião que se emite, saber quem representa, quem ou quê para o fazer. Porque, para opinar importa saber em nome de quem ou de quê se faz, repito. Para opinar, antes de mais, exige-se legitimidade inquestionável. Exige-se também credibilidade, inter-pares desde logo, e até reconhecida fora do seu próprio meio.

E, com isso, vem a visibilidade, de quem, a troco de um momento de glória, mesmo que o faça desacreditado no seio do seu próprio grupo, faz tudo para aparecer e fazer crer ser detentor da verdade.

Esquecem muitos desses opinadores, e os próprios consumidores da informação, que visibilidade nem sempre é representatividade. E, parecem também não perceber que essa representatividade só se alcança com legitimidade e credibilidade., nomeadamente quando é sujeita ao sufrágio directo.

A questão fica posta e diz respeito a todos os grupos sociais e à própria sociedade em geral. E, estou certo, o universo dos bombeiros não estará fora disso.

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

 

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