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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

domingo,

22/10/2017

19:55

Um jogo que não é inocente

04/04/2017 12:31:05

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Todos o reconhecemos. O voluntariado nos bombeiros assume um papel social determinante e um valor económico nem sempre devidamente tido em conta nem reconhecido. Ambas as vertentes, social e económica, caracterizam e valorizam o exercício do voluntariado.

A primeira vertente, a social, diz respeito ao impacto na comunidade, não só como uma forma especial, diferente e mais próxima de exercer a prevenção e o socorro, mas também como o próprio exercício da cidadania pró-activa em sentido estrito e comprometido como mais nenhuns fazem.

A segunda vertente, a económica, permite avaliar, não só, quanto é que a sociedade poupa, se tivesse que custear integralmente a prevenção e o socorro de que é alvo, mas também, o quanto o voluntariado poderia contribuir para o próprio PIB, caso fosse reconhecida essa componente, o que não acontece. Em qualquer caso, essa vertente é perfeitamente mensurável, razão pela qual não pode deixar de ser sempre considerada.

Ao longo de décadas, a sociedade moderna tem evoluído, e as formas e modelos como se organiza e funciona têm vindo a sofrer alterações consideráveis. O voluntariado, que não pode ser dissociado de tudo isso, também se debate com crescentes e novos desafios.

Desafios que se prendem com a dificuldade sentida em manter-se nos precisos termos do passado, como alguns ainda defendem ou outros atacam, quando a sociedade inexoravelmente evolui e muda a cada momento.

O voluntariado é precisamente uma expressão da organização e da disponibilidade em sociedade, a que os bombeiros são chamados e se devotam há séculos. Pensar que essa expressão de cidadania se poderá manter sem sofrer naturais mudanças é absurdo e mesmo contranatura. Por isso, entendamo-nos, o que está em causa não é o voluntariado, mas o seu enquadramento, a sua valorização e viabilização à luz dos novos desígnios da sociedade e da sua organização moderna.

Não tenho dúvidas sobre a vontade de muitos em serem, e continuarem a ser, voluntários. Contudo, já tenho dúvidas sobre a vontade da sociedade, na prática, em ter isso sempre em devida conta, apesar das vantagens que daí decorrem, face à necessidade de investir nesse sentido, de criar novas condições, incentivos e novas regras para o seu exercício. Obrigação que tem falhado muitas vezes.

Cabe à própria sociedade saber e dizer se quer ter e manter o exercício do voluntariado. Por que, se quiser, terá que o assumir e, nesse sentido, criar as devidas condições que permitam esse exercício, nada mais simples. Não se empenhar para tal, e depois vir dizer que não há voluntariado por que não há quem o queira fazer, é um jogo que não é inocente e que é até perigoso, pelas consequências que possa vir a ter.

Ninguém gosta de manifestar disponibilidade para ser voluntário para depois esbarrar na indiferença ou até ser prejudicado na sua vida pessoal ou profissional. Em especial, quando é sabido e reiterado que a sociedade tem sido altamente beneficiada com tal disponibilidade. Ora, é precisamente isso que está a acontecer na sociedade portuguesa. Ser voluntário e depois não ver reconhecido esse papel não funciona.

Devem ser refundadas ou criadas novas medidas que acautelem a compatibilização do voluntariado com a restante vida de cada um que o exerce, nomeadamente, no tocante à sua actividade profissional que, por essa razão, não pode ser posta em causa ou prejudicada.

Por em causa tudo isso é praticar uma enorme injustiça para quem precisamente quer ser solidário para com a sociedade, e inviabilizar a continuidade e a renovação do voluntariado.

E repito. Muito do que se tem dito e feito em torno do voluntariado em bombeiros é um jogo que não é inocente e até pode ser perigoso.

O voluntariado nasce da vontade das mulheres e homens que o abraçam mas tem que ser acarinhado e defendido. Cada época deverá reunir as condições e os meios para isso. Malbaratar esse extraordinário recurso social está a ter consequências graves de que toda a sociedade um dia se irá inevitavelmente arrepender.

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

 

 

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