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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

terça-feira,

26/09/2017

13:45

Tudo tem o seu tempo

04/09/2017 10:40:00

A foto que reproduzimos diz respeito ao grupo de fundadores dos Bombeiros Voluntários de Murça, Vila Real.

Em muitas das nossas associações e corpos de bombeiros existem fotos do género e, por razões que se percebe, encontram-se sempre expostas em local de destaque. É o orgulho por quem nos antecedeu, quem lutou no seu tempo e deve ser motivo do nosso tributo.

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Os fundadores e todos os dirigentes, comandos e bombeiros que se sucederam nas histórias das nossas instituições são o exemplo e a demonstração de que elas não surgiram do nada, nasceram da vontade de mulheres e homens, muitas vezes em tempos já longínquos, conturbados e difíceis. Trata-se de gente boa cujo nome é conhecido e cujas acções ficam inexoravelmente associadas ao registo perpetuado pelos livros, pelas fotografias e, tantas vezes, ainda pela memória de alguns que lhes sucederam e que felizmente ainda estão vivos.

As histórias das nossas associações, e dos nomes que lhes estão ligados, são um contínuo de etapas, cada uma sucedendo-se às outras, com protagonistas e circunstâncias de cada época, seguindo o curso normal da vida. E para que a verdade histórica prevaleça importa que essa cadência seja sempre respeitada, sem simplificações ou saltos entre etapas para que não se corra o risco de interpretar mal ou não entender todas elas e a sua correlação.

Temos a certeza que tudo e todos têm o seu tempo e, ao enaltecer com justiça o que foi feito e quem o fez, importa saber que a história não se repete e que, como diz o povo, a água não passa duas vezes por baixo da mesma ponte.

E também sabemos que, o que de bom foi feito no passado, que lembramos e celebramos até, já não se repete nem terá a ver com o presente. Não está nunca em causa o que de bom foi feito, nem muito menos em causa as próprias personagens, perante o curso imparável e inexorável da história cujo curso e actualidade cabe a outros dar continuidade.

Como alguém disse, o passado não é um jogo de tabuleiro passível de ser jogado e rejogado à vontade de quem quiser, tendo sempre como certeza que o que aconteceu, aconteceu, e o que não aconteceu, não aconteceu.

Na vida, como nas histórias das organizações, as mudanças fazem-se com quem está, não com quem esteve.

Os que estiveram antes, pouco antes, muito antes, ou apenas estiveram de passagem, também foram chamados a desempenhar o seu papel próprio e à época. E, independentemente dos resultados então alcançados, nunca poderemos por em causa a bondade, a tenacidade e a vontade com que então se aplicaram. Devemos-lhes esse respeito, esse reconhecimento e essa homenagem, por tudo aquilo que conseguiram fazer mas, também, com igual reconhecimento, por tudo aquilo por que lutaram mesmo que nem sempre com o resultado desejável.

Quem esteve nas organizações merecerá sempre o nosso reconhecimento, e devemos-lhe testemunhar atempadamente isso. Mas a história não para, não muda, não se inverte, mesmo que alguns desejem fazê-lo.

As contas com o passado, se as houver, estão feitas e quem não as fez no tempo certo também já não o poderá fazer. Houve tempo e momentos próprios.

A ninguém deve ser coarctado o direito de se exprimir e evidenciar os seus pontos de vista mesmo que de forma revivalista se desenterrem fórmulas que no passado não conseguiram fazer prevalecer nem solucionar.

Nesta matéria, muitas vezes, a questão está na lógica e na oportunidade do momento, porventura desaproveitada ou não assumida quando, de facto, alguns tiveram capacidade de influenciar e até decidir e não o fizeram ou não o conseguiram fazer, mesmo se à data empossados e responsabilizados para tal.

O curso da história prosseguiu e, passados anos, sedimentadas as etapas e os episódios de então, importa repetir que ela não se repete mesmo que eventuais ondas de sebastianismo o queiram provocar e, inclusive, reescrever muito do que ficou feito ou não.

Há quem defenda que estará às vezes por fazer o balanço dos que passaram. Admito que sim, caso a intenção seja precisamente sublimar as diferentes tarefas que cada um desempenhou e incorporá-las, se assim se entender, com maior incidência na memória colectiva das nossas organizações.

Todas as organizações valorizam-se com os seus senadores, as mulheres e homens -bons que fizeram as suas histórias e já entraram nela e que, a seu tempo, foram precisamente os decisores de então. E assim será no futuro com plena certeza.

Mas deixemo-nos de chamar à colação episódios que a própria história se encarregará de interpretar, cabendo-lhe esse papel com base no que foi feito, dito e escrito.

Eu próprio votei a favor, e rapidamente dei-me conta do erro, para que o então Serviço Nacional de Bombeiros (SNB) passasse a ser designado como Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC), mesmo que o figurino SNB tão querido de muitos há muito estava estafado, ou alguns estafaram.

Alguns que me estão a ler, pela idade, ou pelo tempo no universo dos bombeiros, não darão importância a esta questão, ao contrário de outros. Dirão até que se trata de chover no molhado, dado o tempo passado desde então e o facto, também conhecido, de que a história não volta atrás nem se repete.

Hoje, o passado é passado e os novos tempos são outros tempos e as mudanças fazem-se com que está, não com os que estiveram antes, pouco antes, muito antes ou apenas estiveram de passagem.

Quem está, deve prosseguir e terminar a função. Para que outros, no futuro, saibam e devam também fazê-lo. A história, a todos eles, a seu tempo fará justiça. Tudo tem o seu tempo.


Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

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