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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

quinta-feira,

19/09/2019

09:46

Sem mas, nem meio mas

08/08/2019 09:58:35

Basta ler uma meia dúzia de monografias das associações de bombeiros voluntários deste país para perceber do que se trata.

Em todas elas se retrata a têmpera de vários grupos de pessoas, em muitos casos heterogéneos, mas que apresentam um traço comum muito forte que posso interpretar e identificar naquela frase tão comum “sem, mas nem meio, mas”.

São histórias que se repetem no passado remoto ou próximo, interpretadas pelos fundadores das associações e por todos os que se lhes seguiram, e que se repetem hoje no dia a dia de cada uma delas.

“Antes quebrar que torcer”, pode ser outras das expressões comuns a interpretar o mesmo estado de espírito, a mesma determinação que tem caracterizado o movimento associativo português e, no caso particular, o dos bombeiros voluntários.

Se os fundadores e mentores das nossas associações tivessem evidenciado titubiezas, dúvidas ou quaisquer receios, humanamente porventura justificados, contudo, essas instituições nem teriam saído do papel tais as dificuldades de monta que se lhes ofereceram desde o início.

Muitas associações mais pareceram nascer contra tudo e contra todos, com muitas opiniões doutas proferidas pelos que iam passando à margem, mas sem quererem meter a mão na massa, desporto que ainda hoje muitos também praticam.

Outras nasceram com um colosso de gente interessada, mas em que com o tempo apenas ficaram os teimosos, ou como se diz agora, os resilientes.

Independentemente dos termos em nasceram, todas as associações têm em comum o facto de já terem nascido sem dinheiro. E todo o que veio a seguir ao longo dos tempos foi bem suado por quem andou atrás dele.

Eu diria até que, nos termos em que, em regra, as nossas associações nasceram, tudo teriam para que corresse mal, nem começassem, começassem mal ou pouco tempo de vida tivessem.

Passado o centenário de muitas delas, afinal veio-se a provar o contrário. Tudo o que reunia aparentemente todas as condições para que não vingassem afinal provou o contrário, ou seja, foram crescendo, desenvolvendo-se afirmando-se na comunidade local e até extravasando para o distrito e para o país corporizando um movimento solidário de apoio ao socorro e combate à adversidade e em defesa das populações.

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Naturalmente que é voz comum que as associações de bombeiros, tendo nascido no seio das respectivas comunidades, à partida, sempre contaram e contam com o reconhecimento destas, o que é indesmentível. Porém, como se costuma dizer, “só quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro”. Isso não nega o reconhecimento nem o carinho pelos bombeiros por parte das comunidades, mas, de facto, não deixa de assinalar que em muitas circunstâncias a materialização de tudo isso e, em particular, a função do próprio Estado para com as associações deveria ser mais lesta e expressiva.

Trata-se de uma questão de todas as épocas e, se nos debruçarmos sobre as monografias que atrás referi, encontraremos precisamente testemunhos e relatos disso.

Todas essas monografias trazem-nos de facto o registo que, pese embora as dificuldades sentidas desde o início, as nossas associações nasceram “sem, mas nem meio, mas”.

Haveria muitas razões para não fazer, mas, como a história testemunha, pontificou a vontade de fazer. Não valeram eventuais razões para dúvidas. Outros teriam dito, “mas se isto, mas se aquilo” para justificar porventura o falhanço, o arranque mal sucedido, caso não tivesse vingado a determinação, a força de vontade, a teimosia, e por que não, a resiliência.

Temos que estar agradecidos a todos os que escolheram o caminho do “sem, mas”, no passado, hoje e no futuro.

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