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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

terça-feira,

23/05/2017

17:40

Ou contam ou não contam

30/12/2016 12:56:38


inemdez.jpgA questão é lamentavelmente recorrente. Diria até que é quase histórica, e que há muito devia ter sido ultrapassada. Esse é o desejo renovado dos bombeiros no seu dia a dia e da própria Liga dos Bombeiros Portugueses nos muitos contactos institucionais em que tem chamado sempre a atenção para o facto.

Nesta matéria, como em tantas outras que dizem respeito ao socorro não há, não deve, nem pode haver meio-termo ou qualquer tipo de eventual jogo escondido. Ou contam connosco ou não contam.

Todos sabem que os bombeiros asseguram mais de 90 por cento do socorro pré-hospitalar em Portugal a solicitação do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) através dos centros de orientação de doentes urgentes (CODU). O INEM é a entidade que legalmente gere esse socorro mas na prática são os bombeiros que o satisfazem quase na totalidade. Os números falam por si e as competências demonstradas pelos bombeiros também.

A realidade do dia a dia é clara, demonstrando quantitativa e qualitativamente o papel dos bombeiros no socorro pré-hospitalar. Contudo, perante factos tão evidentes, o INEM repetidamente demonstra os seus complexos em relação à sua natural e positiva dependência dos bombeiros para cumprir a missão de socorro. Diria até que poderemos estar perante um caso de bipolaridade institucional em que, umas vezes valoriza o papel do parceiro bombeiros, e outras vezes, temeroso do impacto que essa relação possa evidenciar esquece-os ou apaga-os.

Vejamos o caso concreto do anúncio feito pelo INEM sobre o reforço de meios de emergência no decorrer do presente mês de Dezembro e noite de fim de ano. Limita-se a falar dos seus próprios meios, claramente exíguos relativamente a todos os outros que os bombeiros facultam. Diz que vai reforçar os seus meios, inclusive, na noite da passagem de ano, mas omite, por razões que lamentamos, todo o dispositivo de pré-hospitalar que os bombeiros, por sua própria iniciativa, também reforçam na mesma época sem necessitar de parangonas.

Será até de estranhar que o INEM pretenda reforçar o seu próprio dispositivo de socorro e nem acorde com os seus principais parceiros, os bombeiros, os termos desse reforço.

A Liga dos Bombeiros Portugueses, lamentavelmente, não foi tida nem achada nessa matéria mas, à parte isso, sabe que pode testemunhar aos portugueses que, na passagem de fim de ano, como em todas as noites e dias do ano, os bombeiros estarão nos seus postos, alerta, disponíveis, solícitos para a resposta às necessidades dos seus concidadãos.

Rocha da Silva, primeiro médico responsável do Serviço Nacional de Ambulâncias (SNA) que deu origem ao INEM, não pensava assim dos bombeiros. Sabia bem, como eu próprio pude testemunhar por diversas vezes, que os bombeiros eram o parceiro fundamental do serviço que então surgia e só cresceu graças a essa muleta providencial.

O INEM tem dias, não é de agora, é um posicionamento de anos e que há muito devia ter mudado a bem de todos. Pensa por e para si próprio e, não obstante sussurrar às vezes o contrário, de facto é constrangido, quase envergonhado na afirmação da necessidade do seu parceiro.

Não tenho qualquer dúvida que sem os bombeiros o SNA/INEM pura e simplesmente não teria passado do papel.

Ao longo do tempo são muitas as atitudes conhecidas na tentativa incompreensível de sacudir o parceiro, a raiar, muitas vezes, a verdadeira megalomania doentia.

Veja-se o caso das ambulâncias entregues aos bombeiros no âmbito dos Postos de Emergência Médica (PEM). Qual a razão pela qual o INEM é tão resistente a que as respectivas associações e corpos de bombeiros evidenciem os seus símbolos nessas ambulâncias? De facto, a hierarquia de símbolos devia ser a contrária à pretendida pelo INEM, ou seja, a evidência dos símbolos dos bombeiros, que são quem operam na realidade aquele meio, e depois do INEM, enquanto proprietário da mesma.

Daí, por isso, erradamente, as pessoas que não estejam tão familiarizadas com os bombeiros, dizerem que em certas circunstâncias quem as terá assistido foi o INEM quando, na verdade, quem esmagadoramente o fez e o faz são os bombeiros, com as suas competências, “know-how”, conhecimentos e experiência com recurso apenas à ambulância cedida pelo INEM.

Estes são pequenos/grandes expedientes que ajudam o INEM a estabelecer a confusão.

Todos sabemos tão bem que, quantas vezes os bombeiros, a solicitação do CODU/INEM, chegam com as suas próprias ambulâncias, tão ou mais bem equipadas que as do INEM, e são confrontados com a estranheza da sua chegada com tais meios quando as pessoas terão chamado e contavam com a chegada do INEM?

A verdade tem que prevalecer sobre tudo isto. Importa socorrer bem e, ao mesmo tempo, evidenciar quem tem o mérito de o fazer.

Lutemos pelo reforço de uma parceria que para ser verdadeira e ainda mais eficaz, deve ser levada a sério, assumida com verdade, na prática, assente no respeito mútuo, entendida em termos de paridade e reconhecimento mútuo das mais-valias, competências e méritos de cada um.

Haverá sempre quem coordene, esse será o papel do INEM, quem tenha a capacidade legal para o fazer mas que saiba, a par disso, manter uma postura de unidade e respeito.

Cabe ao INEM cumprir o seu papel mas importa que não tente ceder à tentação de cavalgar o parceiro a troco de injusta e falsamente passar a ideia de que, para além do seu papel, também se apropria de forma abusiva da missão e do papel dos outros, diga-se, dos bombeiros.

No fundo, importa que o INEM se deixe de complexos e defina claramente, com as respectivas consequências, se conta ou não com os bombeiros. E que se lembre, também, que só existe, de facto, por que há bombeiros.

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

 

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