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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

terça-feira,

12/12/2017

12:12

Os francesismos da moda

04/10/2017 15:49:24

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Daqui ou dali surgem ditos, mexericos, nem se podem chamar notícias, que fazem crer estar para cair uma hecatombe sobre os bombeiros. Não é a primeira vez que tal se “anuncia” nem será, por certo, a última.

Estamos integrados na sociedade, nascemos dela, para ela trabalhamos e, por isso, também estamos sujeitos às lateralidades próprias da mesma sociedade. Nelas incluem-se desmandos, incongruências, cabriolices até, que ora emergem, regurgitam, ou pura e simplesmente vão e vêm sem que delas se conheça o suficiente ou valha dar muita importância. Bocas, como se diz em linguagem comum.

Haverá alguém que pense fazer crer que somos “presa” fácil, da nossa própria generosidade e apego à causa, do mediatismo, da opinião pública, do diz que disse, dos mexericos, até dentro do nosso próprio universo.

Essas atitudes, quais nódoas sociais, que, quando desmascaradas, tentam desvanecer-se por aplicação de qualquer produto milagroso, mesmo assim, persistem. Pretendem fazer mossa, pretendem causar danos, desacreditar as mulheres e homens e as suas instituições, mas conforta-nos a certeza de que, em resposta lapidar, o trabalho de todos elas e eles demonstra à evidência as suas qualidades e capacidades intrínsecas à sua missão de protecção e socorro.

Fazemos parte da sociedade, temos um papel a desempenhar nela, que assumimos, (também há na sociedade quem não saiba o que anda a fazer mas que se prodigaliza em meros palpites) e é nesse sentido que a nossa postura e atitude se deverá manter.

Fazemos parte da sociedade, participamos nela, interagimos com ela e mantemos a legitimidade e a responsabilidade de quem tomou a iniciativa, de moto próprio, de salvaguardar a protecção e o socorro dos concidadãos. E, à partida, importa ressalvar que assumimos essas missões em função das nossas capacidades e potencialidades, que pomos ao serviço da sociedade, mas também para cujo desempenho importa garantir os recursos, incluindo a necessária sustentabilidade, que cabe a ela garantir-nos.

Não desdenhamos a crítica nem o douto conselho mas não suportamos nem admitimos que queiram decidir por nós, seja na tentativa da desresponsabilização da sociedade e do Estado relativa aos recursos que lhes cabe garantir-nos, seja para que nos queiram tentar transformar em “borracha” para apagar os erros que os outros cometem.

Não estamos cá para os fretes de quaisquer interesses, grupos ou entidades alheias que por sistema optam por envergar a fatiota de cordeiro quando, de facto, cuidam apenas do que é seu ou do que apenas lhes interessa.

Dizem (quem?) que já não haverá mais dinheiro para os bombeiros ou, dito de outra forma, que o dinheiro destinado aos bombeiros vai ser desviado para a prevenção.

Lembremo-nos que as associações de bombeiros são estruturas pensadas e desenvolvidas à escala local. Foi assim que foram pensadas e é nessa lógica que se mantém e desenvolvem.

Antes, só episodicamente os bombeiros eram chamados de forma solidária a intervir fora das suas zonas e regiões no combate a incêndios.

E, ao longo do tempo, todos sabemos, inclusive hoje, a excepção quase passou a ser regra. Exemplo disso são os muitos milhares de bombeiras e bombeiros que este ano se têm prodigalizado ao longo do país, longe das suas terras de origem, na defesa das pessoas, dos seus bens e do património natural de regiões distantes.

Essa inversão dos princípios e do próprio modelo subjacente, que tende a transformar a excepção na regra, implica um conjunto de circunstâncias, incluindo crescentes custos económicos e sociais que importa analisar e sobre os quais tirar as devidas conclusões. Analisar e concluir se, de facto, o actual quadro estabelecido para o combate aos incêndios florestais cobre todos esses custos, económicos e sociais, se cobre os impactos que causa, directa ou indirectamente, quer nas zonas de origem dos operacionais e nas suas associações, quer nas zonas para onde se deslocam solidariamente.

Se só nos confinarmos às nossas zonas de intervenção, às nossas áreas e localidades, de facto, não estamos a fazer nada que, na verdade, não esteja consignado nas regras vigentes, nos princípios, na própria lei ou até nos estatutos das respectivas associações. Isso quer dizer que o contrato social que as associações estabelecem com as respectivas comunidades mantém-se activo e eficaz. Para além de tudo, porque cumpre na íntegra os desígnios para que os bombeiros foram criados no seio das comunidades locais.

Quando ultrapassamos essa escala é por que, a esse contrato social local, cujo cumprimento continuamos a assegurar, entendemos também assumir outra fatia extra de responsabilidade perante a adversidade que atinge os outros. Esse desdobramento implica deslocar outros meios humanos e materiais para outras zonas ou regiões.

E, por essa acção dupla, os bombeiros ficam credores de ainda maior reconhecimento social e as respectivas associações, também, do devido e verdadeiro ressarcimento material.

Sobre o futuro, os ditos e mexericos que por ai pululam, querem-nos fazer crer que poderá deixar de ser assim. Uns dizem que pretendem associar os bombeiros, não só ao combate mas também à prevenção. Outros, ainda, fazem constar que o combate vai ser “profissionalizado” e que os bombeiros voluntários virão a ter um papel secundário.

Nem estes, nem outros hipotéticos cenários nos devem assustar. Em primeiro lugar, por que não será a primeira vez que ouvimos falar deles. Em segundo lugar, por que a questão não estará nos próprios eventuais cenários mas na nossa postura, na nossa atitude e na coesão com que actuarmos perante eles e perante quem os apresenta.

Em terceiro lugar, por que confio plenamente nos dirigentes dos bombeiros, nomeadamente nos actuais, para a devida condução deste processo.

Um dos ditos postos a correr este ano, mais uma vez, diz respeito à falada “profissionalização” do combate. E é adiantado que o modelo francês será o ideal.

No fundo, trata-se de fazer a destrinça entre a opção nacional de ser voluntário e a opção francesa em encontrar voluntários para supletivamente apoiar os profissionais.

Julgo que não cabe menorizar ou desvalorizar o modelo francês, como tantos outros conhecidos. Mas neste juízo importa proceder à análise desses modelos como realmente são, com fragilidades e potencialidades próprias e não como tantas vezes alguns possam fazer crer de forma enganadora e ilusória.

Ao longo da história de Portugal é comum encontrarmos erupções de francesismos levados ao máximo expoente, muito chique, muito à moda.

As soluções fáceis e rápidas partem sempre de quem, muito á moda, ou não conhece a realidade ou, conhecendo-a, contudo, não tem o cuidado de avaliar nem acautelar os termos nem o alcance das mudanças que preconizam.

Reflictamos bem, sem reservas mentais nem tabus, sem temores nem pudores, sem sebastianismos nem saudosismos, ou com as contas mal feitas do passado.

Façamo-lo, não a reboque de modas mas no respeito pelas origens, pelos princípios e pelas missões que queremos continuar a cumprir em prol dos outros. Esse é o ensinamento que eu próprio tiro como bombeiro que fui,  há muitos anos, e dirigente há mais de 25.

 

Não haverá modelos perfeitos, essa é a única certeza que tenho. Mas também não acredito, como tantos outros, em soluções milagrosas, inclusive quando renascem ou surgem em momentos particularmente sensíveis, qual encantamento alimentado apenas por ditos e mexericos.

Andar simplesmente à moda pode ser chique mas, definitivamente, não é o nosso caminho nem a nossa forma séria de pensar e de responder à realidade.

Por isso, não acredito em mensagens que, podendo aparentar ser modernas, de facto, são requentadas e retardadas mas que as modas propaladas por alguns nos querem fazer passar como o melhor, quais fogos-fátuos que também iludiram no passado os navegadores

 

Artigo escrito de acordo com a antiga ortografia

 

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