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Capa do jornal "Bombeiros de Portugal"

Director: Rui Rama da Silva

segunda-feira,

17/12/2018

17:30

A força das raízes

04/10/2018 17:04:27

bn.jpgNos dias de hoje, em nenhuma associação e corpo de bombeiros se usa uma maca rodada para prestar socorro. As existentes descansam em recantos dos nossos quartéis como memórias vivas do passado.

Hoje, fruto da evolução dos conhecimentos e dos meios técnicos, usam-se novas ambulâncias de socorro dotadas dos melhores equipamentos para que os bombeiros que nelas se deslocam possam prestar socorro nas melhores condições, fazendo uso da sua competência, conhecimento e experiência.

E como bem sabemos, hoje o socorro pré-hospitalar prestado no nosso país é assegurado em cerca de 90 por cento pelos bombeiros, aliando eficácia, prontidão e uma muito significativa capacidade de resposta, como fica bem patente.

Aparentemente poderá entender- se que não haverá nada em comum entre a primeira situação e a segunda. Mas eu atrevo-me a dizer que é precisamente o contrário. Há mais semelhanças, e mais profundas, do que se possa pensar, pese embora as enormes diferenças, até óbvias, que inexoravelmente a distância temporal de muitas décadas possa também ditar.

A questão é que, em primeiro lugar, ambas as situações são protagonizadas por bombeiros. E que, nos dois casos, prestam socorro fazendo uso dos meios e dos conhecimentos de cada época. E a razão para tal é simples. É que no passado e hoje são os bombeiros quem, de facto, respondem à totalidade das chamadas de socorro.

Muito recentemente, D. José Tolentino de Mendonça, arcebispo nomeado pelo Papa Francisco para responsável do Arquivo e Biblioteca Apostólica do Vaticano, afirmou que “a força das raízes não é (apenas) o passado da árvore, mas a garantia da sua vitalidade”.

Esta expressão dá que pensar e, em meu entender, pode bem servir como tema de reflexão a propósito da história e da evolução dos bombeiros e do voluntariado em Portugal.

É a força das raízes que ao longo do tempo vai alimentando a árvore. É a força das raízes que a vai fazendo crescer e moldando-a em função das condições e oportunidades que vai obtendo para crescer e desenvolver-se. Assim se passa também nas associações e corpos de bombeiros.

Começou por uma linguagem, uma intenção comum ditada pela vontade de concretizar um sonho de alguns para responder às necessidades de todos.

Tratou-se de uma linguagem, uma vontade, que ao longo do tempo foi revelando e consolidando uma identidade própria, uma cultura de estar, saber estar, querer estar de modo diferente para, além das suas vidas e experienciais pessoais, poder responder às necessidades do colectivo, da comunidade de que fazem parte. Uma vontade que criou raízes, que foi crescendo delas, uma vontade solícita e activa em prol dos outros.

Tal coisa afigurar-se-ia tão simples como tão complicada ao longo do tempo em função da evolução da própria sociedade em que essa cultura nasceu, cresceu e desenvolveu-se.

A força das raízes naturalmente testemunha o seu vigor, a sua força de crescer, a evolução, as suas diferentes etapas, e evidenciam a força anímica e a determinação com que surgiram, com que se desenvolveram e como continuam a ser úteis, como sempre, à vitalidade da árvore ou da instituição.

Os fundadores das associações e corpos de bombeiros, por isso, não são apenas uma memória que se esfuma na névoa do passado. São as nossas raízes e é partir do sonho que acalentaram, que ao longo das diferentes épocas, ao longo do crescimento da árvore ou da instituição, foi possível aos seus sucessores, com os seus cunhos próprios por certo também, ir dando passos importantes que garantiram e garantem hoje a sua vitalidade.

A cultura a que me refiro são obviamente os bombeiros, nomeadamente voluntários, e a imagem da árvore aplica-se perfeita e justamente às nossas associações e corpos de bombeiros.

A par do crescimento da árvore, a sociedade que decidiu criar os bombeiros também evoluiu, com novas formas de ver as coisas, com base em novas relações sociais, novas formas de organização. E, a par disso, a linguagem, a identidade e a cultura subjacente aos bombeiros também evoluiu, demonstrando dinamismo próprio e capacidade de ler a história e os seus acontecimentos.

Ao longo dos tempos, a sociedade que decidiu criar os bombeiros foi, ela própria, que deu como adquirida essa realidade, como fazendo parte de si própria, mas, por vezes, sem cuidar de saber e fazer com que ela continue a ver reunidas as condições para se manter e desenvolver. Trata-se de, tão simplesmente, saber cuidar da árvore. Tarefa que cabe a todos realizar.

Trata-se de, em função da qualidade das raízes dotá-las dos meios que as permita continuar a assegurar o crescimento e a vitalidade da árvore, também dito, dos bombeiros.

Trata-se de assegurar o equilíbrio de meios que alimentem a vontade colectiva dos que querem ajudar, os bombeiros, com a dos que desejam e agradecem a sua disponibilidade e eficácia, a comunidade de que fazem parte.

Ora, como bem sabemos, esse equilíbrio, que pareceria simples e plenamente justificado, nem sempre tem funcionado da melhor maneira. 

E a sociedade, e o Estado que ela criou, por inércia ou demissão, como se queira interpretar, não têm sabido manter esse equilíbrio, aliás, bem traduzido no desfasamento entre os benefícios que os bombeiros lhes têm assegurado e os custos bem demonstrados que isso acarreta e de que eles não têm sido ressarcidos pelos primeiros.

Todos saúdam, e até tecem laudas, à missão dos bombeiros, mas sem as devidas e necessárias compensações, práticas e directas, à sua sustentabilidade.

Esta é a luta de há muito. Esta é a luta em que a Liga dos Bombeiros Portugueses se tem empenhado. Luta que lhe deu origem e que ainda hoje, passados 80 anos, lhe continua a dar sentido.

Todos os dirigentes e comandantes que a integram sabem por experiência própria, até das associações e corpos de bombeiros de que fazem parte, da importância de salvaguardar as raízes para garantir a vitalidade da árvore. E fazem-no em diferentes momentos e diferentes fases, em circunstâncias por vezes particularmente difíceis, mas procurando sempre, em qualquer caso, manter aberta a via do diálogo e da concertação, mesmo que musculada e tensa, como tantas vezes tem acontecido, quer no passado, quer nos dias de hoje.

Falei antes de uma linguagem ditada pela vontade de concretizar um sonho. Sonho que deu origem a uma identidade e a uma cultura própria. Cultura que criou raízes que têm sempre crescido, amadurecido e rejuvenescido a árvore, assegurando-lhe o alimento, logo, a vitalidade necessária para que possa manter-se.

É assim que os bombeiros têm prosseguido, cuidando das suas raízes. Por certo, não será com meros populismos inflamados e plagiadores que iremos prosseguir essa tarefa, pese embora os efeitos mediáticos que daí possam advir. Mas um processo negocial eficaz não se sustenta nem se radica nisso.

A questão, se assim lhe quisermos chamar, cala mais fundo, ou seja, tem horizontes mais vastos e complexos, que a espontaneidade, e atrevo-me até a admitir, a bondade de pequenos gestos não resolve nem ajuda a resolver. Prossiga-se a luta, com verdade e com determinação com base nas raízes e em prol da vitalidade da árvore.


Artigo escrito de acordocom a antiga ortografia

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